O assento do sofá moldado
Tomou a forma do espectador
Horas incessantes sentado
Com o olhar fixo na tela
Insone, ligeiramente perturbado
Olhos na janela do mundo.
Pressionando em rítmo sincopado
Canais diferentes, mesma notícia
Observando a tragédia afastado
Distâncias seguras geram sorriso
Insone, ligeiramente perturbado
Olhos na janela do mundo.
Solitário para não ser julgado
Inadmissível admitir o interesse
Na tortura e em seu torturado
Vida ceifada em um incêndio
O choro te mantém interessado
Sofrimento é entretenimento
Conte como se sente no microfone
Precisamos que o mundo assista
Há de se confortar um insone
Sua tragédia e a sua entrevista
Uma maior que a minha própria
Um choro que embale meu sono.
terça-feira, 7 de maio de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Reality Check
Eletricidade... Uma quantidade massiva desta percorrendo todos os nervos do meu corpo durante um espasmo forte que teria me arremessado para fora da cama, não fosse o fato da sua mão delicada repousando sobre meu peito ter drenado essa energia, convertida em um inspirar profundo e dificultoso antes que minha coluna perdesse a capacidade de me sustentar e minha cabeça novamente tocasse o travesseiro, úmido de suor febril.
- Eu não ouço mais a chuva...
- Ela parou já faz algum tempo, Re.
- Quanto tempo?
- Algumas horas... Você teve outro pesadelo? A febre parece não baixar, eu vou pegar mais remédio e um copo d'agua e já volto.
- Fica... Eu ainda não sei onde eu estou ou o que aconteceu, você se importa?
- De quanto você se lembra?
- Não muita coisa, me lembro da chuva... Eu disse ou fiz algo inapropriado?
- Descanse, eu ainda vou estar aqui quando você acordar.
- Sabe, em uma noite de chuva como essa eu saí para acalmar meus pensamentos, três ou quatro anos atrás, e eu nunca tive a sensação de ter voltado para casa. Em um ponto do percurso eu subestimei uma curva e senti a minha consciência adormecer, me recordo do meu reflexo no vidro do carro e do barulho, e então a reta depois da curva, fazendo o caminho de volta... Talvez o fato de eu não ter a lembrança do elo entre esses dois pontos tenha criado essa fantasia de interrupção existencial e início do sonho, como um coma... Mas talvez eu tenha criado tudo o que veio após esse momento, e tudo o que eu vi, ouvi, toquei, cheirei e provei depois disso foi colocado lá pelo meu desejo de ter chego em casa naquela noite.
- Mas eu estou aqui, isso é real de alguma forma para você, certo?
- Você me disse ter sonhado comigo, certo? Se lembra de ter me visto, ouvido e tocado?
- Sim, eu sempre te conto sobre os meus sonhos com você...
- Essas sensações e a versão de mim que você replicou, da maneira como me fez, também são reais de alguma forma. Você só se dá conta de que era a sua mente mimicando a realidade quando acorda no que você julga ser a realidade.
- Soa assustador, mas não posso discordar... Eu posso fazer algo para que você se sinta nessa realidade que você descreve, de alguma forma?
- Você pode cantar para mim, como quando eu adormeço no seu colo.
- Te ajuda com essa sensação ou você só gosta quando eu canto para você?
- As duas coisas, a sua voz me acalma, mas eu não nego que sempre imagino a possibilidade de adormecer aqui e acordar com essa mesma música enquanto você segura a minha mão em um leito de hospital para eu finalmente lhe perguntar quanto tempo realmente se passou desde aquela noite enquanto sedativos fortes me faziam fantasiar um paradigma alternativo.
Era um esforço admirável que você me abraçasse e continuasse cantando mesmo com contrações involuntárias de choro no diafragma, com um fluxo de ar conturbado, suas lágrimas agora somavam à umidade do meu travesseiro enquanto eu refletia sobre o quanto eu fui um idiota em ambos os paradigmas, no primeiro por preocupa-la com meu problema de dissociaçâo e no segundo por ter contado a uma criação da minha mente como a minha mente funciona, inibindo um possível teste de realidade futuro. Três vezes idiota por estar pensando nisso enquanto você me abraça forte em prantos ao invés de conforta-la. É melhor conforta-la agora, uma voz sussurra "vai ficar tudo bem, não se preocupe", e desta vez, ironicamente, é a minha própria.
- Eu não ouço mais a chuva...
- Ela parou já faz algum tempo, Re.
- Quanto tempo?
- Algumas horas... Você teve outro pesadelo? A febre parece não baixar, eu vou pegar mais remédio e um copo d'agua e já volto.
- Fica... Eu ainda não sei onde eu estou ou o que aconteceu, você se importa?
- De quanto você se lembra?
- Não muita coisa, me lembro da chuva... Eu disse ou fiz algo inapropriado?
- Descanse, eu ainda vou estar aqui quando você acordar.
- Sabe, em uma noite de chuva como essa eu saí para acalmar meus pensamentos, três ou quatro anos atrás, e eu nunca tive a sensação de ter voltado para casa. Em um ponto do percurso eu subestimei uma curva e senti a minha consciência adormecer, me recordo do meu reflexo no vidro do carro e do barulho, e então a reta depois da curva, fazendo o caminho de volta... Talvez o fato de eu não ter a lembrança do elo entre esses dois pontos tenha criado essa fantasia de interrupção existencial e início do sonho, como um coma... Mas talvez eu tenha criado tudo o que veio após esse momento, e tudo o que eu vi, ouvi, toquei, cheirei e provei depois disso foi colocado lá pelo meu desejo de ter chego em casa naquela noite.
- Mas eu estou aqui, isso é real de alguma forma para você, certo?
- Você me disse ter sonhado comigo, certo? Se lembra de ter me visto, ouvido e tocado?
- Sim, eu sempre te conto sobre os meus sonhos com você...
- Essas sensações e a versão de mim que você replicou, da maneira como me fez, também são reais de alguma forma. Você só se dá conta de que era a sua mente mimicando a realidade quando acorda no que você julga ser a realidade.
- Soa assustador, mas não posso discordar... Eu posso fazer algo para que você se sinta nessa realidade que você descreve, de alguma forma?
- Você pode cantar para mim, como quando eu adormeço no seu colo.
- Te ajuda com essa sensação ou você só gosta quando eu canto para você?
- As duas coisas, a sua voz me acalma, mas eu não nego que sempre imagino a possibilidade de adormecer aqui e acordar com essa mesma música enquanto você segura a minha mão em um leito de hospital para eu finalmente lhe perguntar quanto tempo realmente se passou desde aquela noite enquanto sedativos fortes me faziam fantasiar um paradigma alternativo.
Era um esforço admirável que você me abraçasse e continuasse cantando mesmo com contrações involuntárias de choro no diafragma, com um fluxo de ar conturbado, suas lágrimas agora somavam à umidade do meu travesseiro enquanto eu refletia sobre o quanto eu fui um idiota em ambos os paradigmas, no primeiro por preocupa-la com meu problema de dissociaçâo e no segundo por ter contado a uma criação da minha mente como a minha mente funciona, inibindo um possível teste de realidade futuro. Três vezes idiota por estar pensando nisso enquanto você me abraça forte em prantos ao invés de conforta-la. É melhor conforta-la agora, uma voz sussurra "vai ficar tudo bem, não se preocupe", e desta vez, ironicamente, é a minha própria.
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