domingo, 28 de abril de 2013

Hipotermia


Fui eu quem invadiu o seu templo e tomou todas as suas relíquias, de tal forma que você se perdesse do seu colecionismo de eventos passados. Eu só não esperava faze-lo se perder de si, a memória torna-te quem tu és e eu quase obliterei seu significado das coisas.
"Está vazio" você disse com uma tristeza imensurável e digna de pena, "Eu estou aqui, não vai continuar vazio por muito tempo" ela disse sem se dar conta das duas inverdades acidentais em sua sentença proferida em uma tentativa de ao menos confortar o inconsolável. Ela jamais visitaria o seu templo, construído no seu hipocampo, no máximo ela ouviria descrições aproximadas de coisas indescritíveis.
Conduzidos ao nosso inferno astral ambos tremíamos de um frio que não obedecia as leis da termodinâmica terrena, nenhuma fonte de calor ou isolante nos impedia de continuar trêmulos ou combatia a sensação hipotérmica que nos tomava, o algoz e a vítima tão pateticamente padecendo do mesmo efeito. Patético.

sábado, 13 de abril de 2013

Um passeio pela relatividade

Deixo você em casa, você me beija no rosto, agradece, acena e entra, nessa mesma ordem, a mesma figura de linguagem e as mesmas palavas como alguns anos atrás, como nunca mais nesse hiato entre o agora e o antigamente que está se avivando na minha percepção, bate a porta do Civic... Não, hoje eu dirijo um Astra, bate a porta do astra e vai embora, é o que acontece...
A pista está molhada, apesar da chuva já ter cessado, sem vento, a melhor condição para se dirigir e eu estou sozinho, como antigamente! O motor do Astra ronca enquanto a perda de tração faz com que o veículo realize as curvas sempre com os faróis apontados para o centro dela, não para a direção de deslocamento. Freios a tambor atrás, disco na frente, relativamente estável, carro pesado, motor forte, derrapagem fácil com retomada médio-difícil em velocidades superiores a 70Km/h. Sempre repito mentalmente isso quando adentro uma curva, "lembrar é viver", certo?
Finalmente a reta, 5 quarteirões inteiros antes do PARE inevitável de uma rua movimentada, velocidade da via de 40Km/h, recorde pessoal de 118Km/h no marcador digital, distância requerida para frenagem com o chão molhado com freio a disco e sistema ABS do Civic em torno de 20 metros. Certo.
Acelero o Civic por entre os carros estacionados nos cantos até o momento de acionar os freios, quando o faço o Civic desliza por alguns metros... Porque? Meu Deus, eu estou no Astra, eu estou no presente!
Você está lá, sorrindo, como sempre esteve quando algo do tipo acontecia, me esperando? Eu estou prestes a atravessar uma rua movimentada, não há espaço físico para parar o Astra com seu sistema disco/tambor e os pneus não estão nas melhores condições, passo a marcha e acelero, faróis impiedosos ofuscam a minha imperícia enquanto uma buzina grita com a minha imprudência, ambos os veículos ilesos, um condutor surpreso e assustado, o outro apenas confuso.
As lembranças da chuva, da recorrente atividade de levar a garota dos cabelos ruivos encaracolados de volta para casa de madrugada, do percurso, do carro, todas se fundindo ao presente, a ponto de me fazer mentalmente substituir o meu veículo. A garota e o percurso eram o mesmo, poderia isso ter sido o gatilho da quase fatal armadilha que minha mente criou para mim? O carro não era o mesmo, a distância de frenagem nunca poderia ser a mesma, eu poderia nunca ter chego em casa, não fosse você e o seu sorriso estarem me esperando, me trazendo de volta ao presente que os meus devaneios insistem em distorcer, para o meu mal? Para o meu bem?
Observo o portão elétrico da garagem correr atrás de mim, desço do carro e olho para ele mais uma vez. Isso é um Astra, essa é a minha casa. Olho no espelho, ainda sou eu, olho pela janela... A chuva é a mesma, de uma maneira relativa. Eu estou vivo, de uma maneira relativa.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Patterns, pt1

"Sempre existe um padrão, a aleatoriedade é uma percepção errônea, é a sensação causada por uma tendência estatística não explorada o suficiente."
V.K.

Você sempre conheceu o mecanismo, talvez também não conheça o motivo, mas conhece o mecanismo e o escondeu de mim, ignorando a sua responsabilidade de zelar pela continuidade da minha experiência terrena. Porque esperou eu descobrir para me explicar melhor? Valeria a pena perder seu protegido em troca da compreensão dessa verdade? Eu nunca tive o poder de decisão, certo? Você orquestrou esse encontro e todo o resto para que eu tivesse essa epifania, então é essa a sua maneira de me ajudar e ainda permanecer imparcial com a entropia do meu universo pessoal, sem afetar o equilíbrio da balança.
Sempre existe um padrão, o mecanismo é o padrão, primeiro a imersão ideológica no passado, então os sentidos são ativados pelas memórias, vejo, ouço, cheiro, toco e degusto o passado, consciente de ser uma lembrança. Subitamente o passado se projeta no presente, as lembranças se misturam ao agora e é nesse momento que a minha consciência turva, o passado vivenciado de uma forma contemporânea, tão previsivelmente com reações diferentes as originais se eu apenas notasse que nem tudo era real... Esse é o mecanismo! Esse é o padrão! É a única maneira de me manter impotente perante um agente desconhecido que insiste em findar minha existência, seria um agente interno ou externo? Qual é o seu objetivo? Foda-se o motivo, agora eu compreendo o mecanismo pré-assalto.
Depois do assalto ainda há padrões. A dificuldade em encontrar palavras no meu idioma pátrio para descrever conceitos desde simples, infantis até mais complexos enquanto o significado do vocábulo que eu procuro está claro na minha mente e eu tenho a palavra em inglês na ponta da língua.
A sensação de distorção temporal onde o tempo passa devagar demais e meu ritmo de trabalho biológico e mental está acelerado a um nível que eu poderia beirar a exaustão em alguns minutos de questionamento, escrevo parágrafos inteiros e formulo teorias complexas alternando meu olhar entre o receptáculo de minhas idéias e o relógio, que leva 4 ou 5 ciclos anteriormente descritos para passar um dígito no marcador de minutos.
Diminuição da percepção espacial e ambientação minimalista: O universo se resume a mim, o referido receptáculo e o objeto onde observo as horas, geralmente meu celular, até sair do transe não noto a existência de nada mais, o copo d´agua, a mesa, então o meu quarto, então a minha casa, então o meu bairro, alguns minutos se passam até que eu seja reinserido na imensidão risível desse universo.
Por fim com as energias exauridas eu noto que minha febre subiu e o meu corpo está mais fraco e doente, o desgaste é visível no espelho, minhas olheiras, minha pele em tom pálido, meus lábios descorados, estou visivelmente fadigado, mas não vencido.
Padrões, sempre padrões. Padrões são mecanismos, mecanismos são padrões.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

"Cada um de nós resolveu carregar um fardo: eu o da responsabilidade, você o da possibilidade. Por isso minhas idéias fluem claramente enquanto um sussurro ensurdecedor de "e se" ecoa na sua mente."