sábado, 13 de abril de 2013

Um passeio pela relatividade

Deixo você em casa, você me beija no rosto, agradece, acena e entra, nessa mesma ordem, a mesma figura de linguagem e as mesmas palavas como alguns anos atrás, como nunca mais nesse hiato entre o agora e o antigamente que está se avivando na minha percepção, bate a porta do Civic... Não, hoje eu dirijo um Astra, bate a porta do astra e vai embora, é o que acontece...
A pista está molhada, apesar da chuva já ter cessado, sem vento, a melhor condição para se dirigir e eu estou sozinho, como antigamente! O motor do Astra ronca enquanto a perda de tração faz com que o veículo realize as curvas sempre com os faróis apontados para o centro dela, não para a direção de deslocamento. Freios a tambor atrás, disco na frente, relativamente estável, carro pesado, motor forte, derrapagem fácil com retomada médio-difícil em velocidades superiores a 70Km/h. Sempre repito mentalmente isso quando adentro uma curva, "lembrar é viver", certo?
Finalmente a reta, 5 quarteirões inteiros antes do PARE inevitável de uma rua movimentada, velocidade da via de 40Km/h, recorde pessoal de 118Km/h no marcador digital, distância requerida para frenagem com o chão molhado com freio a disco e sistema ABS do Civic em torno de 20 metros. Certo.
Acelero o Civic por entre os carros estacionados nos cantos até o momento de acionar os freios, quando o faço o Civic desliza por alguns metros... Porque? Meu Deus, eu estou no Astra, eu estou no presente!
Você está lá, sorrindo, como sempre esteve quando algo do tipo acontecia, me esperando? Eu estou prestes a atravessar uma rua movimentada, não há espaço físico para parar o Astra com seu sistema disco/tambor e os pneus não estão nas melhores condições, passo a marcha e acelero, faróis impiedosos ofuscam a minha imperícia enquanto uma buzina grita com a minha imprudência, ambos os veículos ilesos, um condutor surpreso e assustado, o outro apenas confuso.
As lembranças da chuva, da recorrente atividade de levar a garota dos cabelos ruivos encaracolados de volta para casa de madrugada, do percurso, do carro, todas se fundindo ao presente, a ponto de me fazer mentalmente substituir o meu veículo. A garota e o percurso eram o mesmo, poderia isso ter sido o gatilho da quase fatal armadilha que minha mente criou para mim? O carro não era o mesmo, a distância de frenagem nunca poderia ser a mesma, eu poderia nunca ter chego em casa, não fosse você e o seu sorriso estarem me esperando, me trazendo de volta ao presente que os meus devaneios insistem em distorcer, para o meu mal? Para o meu bem?
Observo o portão elétrico da garagem correr atrás de mim, desço do carro e olho para ele mais uma vez. Isso é um Astra, essa é a minha casa. Olho no espelho, ainda sou eu, olho pela janela... A chuva é a mesma, de uma maneira relativa. Eu estou vivo, de uma maneira relativa.

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